Próximo de completar os seus dezenove anos de idade, em 1946, conversando com José Márcio Cato, da equipe de atletismo do São Paulo, ele gostou da sonoridade da palavra atleta e resolveu começar a praticar o esporte.
Foi parar no São Paulo Futebol Clube, num lugar mais ou menos conhecido para ele, não muito longe da Ponte Grande, onde se situava a antiga sociedade Deutsche Sportive, um clube de atletismo alemão postado à beira do rio Tietê, onde nos dias de hoje ergue-se o estádio Osvaldo Teixeira Duarte, sede da Associação Portuguesa de Desportos paulistana.
Na época, quando Adhemar começou a dar seus pulos, a Deutsche Sportive já tinha deixado de existir. Tinha sido agregada ao São Paulo, que absorvera também seus associados. Durante a Segunda Guerra, as associações que tivessem nomes ligados aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão, principalmente) corriam risco de desaparecer e perder o patrimônio.
A Deutsche Sportive foi uma das pressionadas pelo governo de Getúlio Vargas. Próximo dela, do outro lado do rio, os italianos do clube Esperia foram obrigados e mudar o nome para Clube da Floresta. O Palestra Itália também sofreu a mesma pressão e foi transformado em Palmeiras.
Até o poderoso Corinthians teve dificuldades, tendo cassado seu presidente, o espanhol Manuel Corrécher. A Deutsche virou Guarani, foi absorvida pelo São Paulo e deixou de existir na metade da década de 1940.
Adhemar entusiasmou-se com uma modalidade diferente: o salto triplo. Surge no então Canindé do São Paulo um futuro bicampeão olímpico, único atleta brasileiro a conquistar dois ouros para o país em Olimpíadas.
"Achei a palavra atleta bonita e decidi que queria ser um", contou. Dietrich Gerner, alemão da época da Deutsche, tornara-se seu técnico, e com ele iria permanecer por um longo tempo.
Competiu pelo São Paulo e pelo carioca Club de Regatas Vasco da Gama, sempre treinado por Gerner. Bicampeão olímpico e tricampeão dos Jogos Pan-Americanos, estabeleceu cinco vezes o recorde mundial do triplo.
Em 1955 vai para o Rio de Janeiro. A mudança de clube e cidade teve uma razão inusitada. Havia sido convidado por Samuel Wainer para ser colunista do jornal Última Hora. Algo difícil de se imaginar para um atleta comum.
Não para o culto Adhemar, formado em Direito, Belas Artes, Relações Públicas e Educação Física. Falava vários idiomas, como inglês e francês. Foi Adido Cultural na Embaixada Brasileira em Lagos, Nigéria,entre 1964 e 1967.
Mas uma de suas mais conhecidas e elogiadas aparições, além das realizadas nas pistas de atletismo, foi no cinema. Em 1956, foi ator na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes e atuou também no filme franco-italiano "Orfeu do Carnaval", em 1962, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Prêmio Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Adhemar Ferreira da Silva faleceu em São Paulo, no dia 12 de janeiro de 1927. Teve uma parada cardíaca. O Brasil perdeu seu maior atleta olímpico. E o mundo o primeiro homem que demonstrou que o ser humano poderia "voar" mais que 16 metros, com um pulo, um passo e um salto.
"O homem, quando vem ao mundo, não sabe para o que vem, ou para onde vai. Graças ao esporte, eu fui longe. Escapei das drogas e da violência", disse um dia.
